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A Morte do Touro Fajardo
10/03/2009

Na casa de meus pais, jogando conversa fora com Fátima, minha repórter investigativa.

- Fátima, o Fajardo morreu.

- Coitado! Ele estava naquela festa, no fim do ano, dos meninos que fizeram faculdade com você?

- Não Fátima, o Fajardo é um touro!

- Ah! Então eu sei, foi o boi Bandido que morreu. Eu vi o enterro dele na televisão, ontem.

- Boi, não. Touro.

- E não é tudo igual?

- Não senhora. Boi só serve para bife, é castrado. Touro é reprodutor, serve para fazer bezerros e bezerras.

- É? Agora eu não esqueço mais. Já aprendi.

- Mas quem é esse Bandido, Fátima? Esse que você viu o enterro da na televisão?

- Aquele touro bravo, que trabalhou numa novela. Bravo pra caramba! Ninguém podia chegar perto dele. Não lembra não, Cristina?

- Agora já sei. Então o Bandido e o Fajardo eram a mesma pessoa, quer dizer, o mesmo touro?

- Só pode ser. Eu vi ontem na televisão, o enterro dele numa fazenda perto de São Paulo. O Bandido tava empalhado, duro feito um páu.

- É isso mesmo Fátima. Na revista, eu li que o dono dele embalsamou o corpo, e também era numa fazenda do interior de São Paulo. E tinha muita gente?

- Cristina, tinha muita gente mesmo, todo mundo chorando e o Bandido lá, duro. Se fosse o meu enterro, só ia ter você.

- Deixa de onda e me conta mais do enterro. Agora quero saber dos detalhes.

- Você precisava ver! O dono dele soluçava. Puseram o Bandido empalhado num caminhão aberto e um monte de gente acompanhou o enterro pela cidade. Todo mundo triste. Tinha até flores. Mas do que será que ele morreu?

- Infarto. Sabe quantos filhos ele teve, Fátima?

- Quantos?

- Duzentos e setenta e cinco mil, minha amiga! E tinha 16 anos. A mãe dele ainda está viva, com 22 anos.

- Bandido safado! Ele era abusado, esse Bandido, tratado como um rei, mas muito bravo. Vai ver que não agüentou tanta safadeza e enfartou. Eu tenho medo desses bichos e de cavalo também. Não quero conversa com eles não.

- De boi, vaca e touro eu também tenho. Mas de cavalo, não. Por que você tem medo de cavalo, Fátima? Cavalo é um bicho tão legal!

- Quando eu era pequena, lá no Sergipe, uma égua deu cria e eu fui ver o cavalinho. Era tão bonitinho, o bichinho! De repente, quando a égua me viu, veio correndo pra cima de mim, querendo me pegar e eu tive que correr e passar no meio de uma cerca de arame farpado, pra poder me safar. Deixei meu couro todo no arame da cerca!

- Mas também você foi mexer com o filhote! Ela pensou que você ia fazer alguma coisa com ele e defendeu a cria.

- De qualquer jeito, eu não gosto de cavalo não! Só consegui passar pela cerca porque naquela época eu ainda era magrinha e mesmo assim me lanhei toda. Ainda por cima levei uma surra de meu pai. É mole?

- Bobagem, cavalo não ataca. Mas agora mudando de assunto, por que você disse que só eu iria ao seu enterro?

- Claro! Só vocês aqui é que gostam de mim. Meu marido, coitado, não entende nada, é doente e o pessoal, lá onde eu moro, quer me ver pelas costas. Estão pouco se lixando pra mim. Também eu não vou no enterro de nenhum deles! Podem morrer que eu nem ligo!

- Isso mesmo! Não vai não. Deixe essa turma pra lá. Mas quem disse que eu vou morrer depois de você? Posso morrer antes. E aí?

- Não vai não, Cristina. Você tem que ficar por último, pra apagar a luz!

- Muy amiga você, não é?

- Claro! Você acha que eu sou boba?

- De boba, Fátima, você não tem nada!

Rio, 10.03.2009
Maria Cristina Villares
villaresmcl.blog.uol.com.br

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