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As Coisas Boas de São Paulo
30/03/2009

Gosto de ir a São Paulo, a começar pela viagem. Adoro chegar ao Aeroporto Santos Dumont e pegar um vôo para a capital paulista. Não existe aeroporto mais carismático do que o Santos Dumont, principalmente a sua parte antiga. As colunas revestidas de mármore romano, aqueles lindos painéis no saguão central, que felizmente não foram destruídos no incêndio de 1998, me trazem lembranças da infância, quando viajávamos para São Paulo de Electra II, na Ponte Aérea. Era um avião charmoso, seguro e confortável. Lembro-me também de ter viajado, antes ainda, nas Asas da Panair. Tudo isso ficou no passado. Mas ainda não há nada melhor do que decolar ou aterrissar, vendo o Pão de Açúcar e a Baía da Guanabara.

Outro dia fui levar Rodrigo, um amigo paulista, para embarcar. Fomos mais cedo, estacionamos e enquanto esperávamos o horário do seu vôo, fomos tomar um vinho e conversar, matar as saudades no 14 Bis, aquele restaurante no segundo andar da parte antiga. O papo estava tão animado, que ele quase perdeu o vôo. Mas ainda deu tempo de embarcar.

Mas vamos para São Paulo, amigo leitor? A chegada em Congonhas já não é tão prazerosa. Quando o avião começa os procedimentos para aterrissar, olho pela janela e vejo milhares de casas e edifícios, começo a pensar que é grande a probabilidade dele pousar sobre um grupo de edificações. Já vi esse filme antes. Parece até que eu poderia acenar para os moradores daqueles apartamentos. Mas Deus ajuda e até agora tenho tido sucesso, ou melhor, os pilotos com os quais eu tenho viajado, têm tido a perícia necessária.

São Paulo é uma cidade com várias coisas muito boas. Pena que agora, com o trânsito cada vez mais caótico, nem sempre podemos aproveitá-las. Há um ano mais ou menos, eu costumava ir e ficar lá por dois dias. Gostava de ficar num hotel na Rua Hadock Lobo, perto da Paulista. No primeiro dia eu me dedicava aos negócios e aos amigos, que trabalham todos concentrados na região do Brooklin. No segundo dia, eu me dedicava a bater perna pela área da Oscar Freire, Alamedas, Jardins, almoçava muitíssimo bem, via lojas lindas e ótimas, ia a um teatro. Gostava de ficar caminhando por aquelas ruas e observando os prédios antigos, bem cuidados, com uma arquitetura imponente, elegante. A Avenida Paulista também tem o seu charme, com o Masp, o Parque Trianon, os prédios altos e modernos, como o da FIESP. É o centro financeiro do país. Grande parte do PIB brasileiro está ali, naqueles 2700 metros de avenida.

Hoje, fico num hotel perto do aeroporto, no Brooklin. Dessa forma eu vou a pé ver meus amigos e resolver as pendências de negócios ao mesmo tempo. Se eu tentar ficar na Hadock Lobo, talvez leve umas quatro ou seis horas para chegar até lá. Isso se não houver uma enchente e meu taxi ficar boiando numa daquelas avenidas. São Paulo já não é mais a terra da garoa.

Lá, os serviços em geral são excelentes, bem melhores que os do Rio. Há profissionais bem mais preparados do que aqui. A medicina, por exemplo, é insuperável. Há um cirurgião cardiovascular, Dr. Sergio Almeida de Oliveira, que é um iluminado. É um profissional internacionalmente conhecido, inigualável no Brasil e um dos melhores seres humanos que eu já conheci. Dr. Sérgio foi estagiário do Dr. Zerbini, fez o Juramento de Hipócrates e o cumpre à risca. Acho que a maioria dos médicos de hoje, talvez nem saiba quem foi Hipócrates. Claro que há exceções, mas não são tantas assim. Em 2004, minha mãe foi operada por ele, de um aneurisma na aorta ascendente, na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Operação de alto risco, mas até hoje ela está muito bem, sem qualquer seqüela. Lembro-me de que todas as noites o próprio Dr. Sérgio ia visitar-nos no hospital. Aliás, esse é um hábito que ele herdou do Dr. Zerbini, depois de terminadas as cirurgias e consultas do dia, sai visitando todos os seus operados em seus quartos, enfermarias, sejam o que forem. Não há palavras para descrever o tratamento e o carinho recebidos por ele, por sua equipe e pela equipe da Beneficência, bem diferente da sua prima carioca.

Mas mesmo sem poder bater perna pela área da Oscar Freire, ainda gosto de ir a São Paulo, principalmente para rever essas pessoas com quem tenho relações comerciais e que são, antes de tudo, amigos muito queridos. Trabalham todos na Seguradora Zurich. Tenho certeza de que se um dia, nossas relações comerciais terminarem, a nossa amizade seguirá. Às vezes sinto saudades e telefono, cobro uma vinda deles ao Rio, mando uns emails desaforados, mas são pessoas que vivem enroladas em mil problemas de trabalho e nem sempre podem vir. Eu entendo. Quando canso de esperar, vou até lá, passo o dia resolvendo as pendências de trabalho e ao mesmo tempo aproveitando a companhia de Neto, Rodrigo e todos os outros e à noite, saímos para jantar. Volto no dia seguinte, feliz por ter estado na companhia de pessoas queridas.

Eu tenho certeza de que vocês devem estar se perguntando. Afinal de contas, o que restou de bom em São Paulo, se não podemos nos deslocar pela cidade e ainda corremos o risco de morrermos afogados? Restou o mais importante, meus amigos. Restou gente. Gente como o Dr. Sérgio, como os meus amigos da Zurich e como outros amigos igualmente queridos, da época da Engenharia na UFRJ, no Fundão, como o Marçal, o Milton, que estão instalados naquela cidade. E por acaso existe coisa melhor do que gente de verdade?

Rio, 30.03.2009
Maria Cristina Villares
villaresmcl.blog.uol.com.br

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