No Salão de Cabeleireiro
23/03/2009
Minhas amigas, digam-me com sinceridade. Quais de nós não temos problemas com os nossos cabelos? É uma eterna preocupação. Corto, não corto, pinto, de que cor? Faço luzes, pinto de vermelho? Aliso, agora quero cachos, mas nem tantos. Somos instáveis, mas mudar os cabelos, ao nosso gosto, é tudo de bom, para as que têm os cabelos versáteis, que podem ser mudados ao gosto de sua dona, na hora em que bate aquela vontade. Sortudas essas! Eu não possuo a mesma sorte. Tenho os cabelos finos, ralos e lisos. Inventar qualquer coisa é impossível, a não ser mudar a cor. O corte, eu já desisti, me convenci definitivamente de que tenho que usar aquele corte tipo curto, meio repicado, que fica pelo menos com um pouco de volume e é fácil de cuidar. Variar, só se eu usasse uma peruca. Já até pensei na possibilidade, mas ainda não acabei de pensar. Mas para eu chegar a esse corte ideal, levou tempo, até que eu encontrasse um cabeleireiro que tivesse as mãos perfeitas para cortar o meu cabelo, porque qualquer vacilo aqui, é um buraco na certa, o maior estrago, não tem como disfarçar.
Quando encontrei Jean Marc, há uns quinze anos, fiquei e continuo fiel. Jean Marc é de Mônaco, da terra de Rainier e Grace, tem pedigree, não é um Jean Quelque Chose. Está no Rio há uns trinta anos, mas ainda conserva um leve sotaque francês. Nada exagerado.
- Como vai, Marrria Crrristina?
Talvez tenha menos erres, não sei. Sei que somente ele sabe cortar os meus cabelos, sem que eu corra qualquer tipo de risco. Tem uma equipe educada e simpática, compatível com o seu perfil e tem outra grande e rara qualidade: é pontual. Eu não tenho mais paciência e nem tempo para ficar horas em um salão, esperando para ser atendida.
Certa vez demorei-me mais do que o de costume no Jean Marc, porque me deu vontade de fazer luzes, para tentar mudar um pouco o visual, e enquanto eu esperava, com aqueles papéis prateados no cabelo, lia uma revista, quando tive a minha atenção desviada para uma conversa entre um maquiador e uma cliente que acabava de chegar. Eles estavam do outro lado do salão. Uma divisória com espelhos nos separava, de modo que eu não os via e nem eles a mim. Mas eu ouvia tudo e passei a me interessar pelo diálogo. Na realidade não era bem um diálogo, era mais um monólogo, porque o maquiador não dava chance para a cliente falar. Acho que ela se limitava a sorrir ou a acenar com a cabeça. Pelo menos era essa a impressão que me passava.
- Querida! Há quanto tempo! Nossa, você está um luxo! Emagreceu tanto! Magérrima e elegantérrima! Eu é que não consigo perder nem um quilinho! Sei que estou precisando, mas é impossível, minha amiga. Adoro chocolate! Mas você vai se maquiar hoje comigo? Que ótimo! Vamos arrasar! É uma festa? Que roupa você vai usar?
- É um casamento. Vou com um vestido bege – respondeu a cliente.
- Maravilha! Bege minha querida, é sempre bege. É chic! E você é chic. Aliás, nós somos chics!
- Uma maquiagem suave, por favor – conseguiu interferir a cliente. Pela voz percebi que era uma senhora.
- Claro! E você acha que eu vou fazer você parecer uma perua! Me poupe! Parece até que você não me conhece. Você vai ser a mulher mais admirada de todo o casamento. Talvez até mais do que a noiva. Meu Deus, que ela não nos ouça!
Enquanto a maquiagem começava, ele continuava a falar.
- Sabe quem esteve aqui outro dia? Aquela nossa amiga, sabe? Tão caidinha, coitadinha! Fiquei com tanta pena. O marido morreu e deixou a viúva sem nada. Está vivendo com a ajuda do filho e filho você sabe como é, a maioria não está nem aí. Quem te viu, quem te vê! Umas roupinhas bregas. A raiz do cabelo branca, as unhas todas por fazer. Um horror, minha filha! Sabe a que ponto ela chegou? Usava o batom nas bochechas e nas pálpebras, no lugar do blush e da sombra! Fiquei chocado! Acabei dando uma maquiagem de presente para ela.
Quando eu ouvi essa observação sobre o batom usado como blush e sombra, levei um susto. Será que aquele maquiador tagarela estava falando comigo ou para mim? Sim, porque eu tenho o hábito de fazer exatamente isso. É prático, quebra o maior galho e é rápido. Em qualquer lugar, com apenas um batonzinho básico, você retoca a maquiagem praticamente toda. Maquiador antipático! Não sabe de nada! Aliás minhas amigas, aprendi esse truque num programa de televisão, com a Fafá de Belém. E sou muito mais ela do que ele.
Rio, 23.03.2009
Maria Cristina Villares
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