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Quarta Feira da Paixão
08/04/2009

Estamos na Semana Santa. Hoje é quarta feira. Amanhã praticamente não haverá nada, nem ninguém no Centro da cidade. As pessoas já devem ter começado a viajar hoje, à tarde.

Almocei em casa e com medo do trânsito, peguei o metrô e fui sentada até a Estação Carioca. Naquele horário, geralmente a gente consegue sentar-se, aqui, na Estação Siqueira Campos. Se não der bobeira.

Acho o metrô o mais prático meio de transporte, seguro, limpo, econômico, mas incrivelmente sem sal, especialmente numa cidade como o Rio. É muito mais agradável ir de carro, ou mesmo de ônibus, pela superfície, principalmente pela orla e ir observando a paisagem, as pessoas, ouvindo uma música.

Metrô é bom, mas é chato! A gente não vê nada, somente os rostos das pessoas presas naquele vagão, sérias, loucas para chegarem ao seu destino e respirarem um pouco de ar natural. Não vou dizer que o ar é puro, porque não é. Tem poluição, mas pelo menos é natural.

Felizmente cheguei na Carioca e desci. Pude ver a luz do dia. Um dia um pouco nublado, mas com a temperatura amena. Passei atrás do Edifício Avenida Central e saí no Largo da Carioca. Havia alguma coisa diferente. O ar estava mais limpo, parece que havia mais espaço, havia pessoas caminhando em volta de uma escultura, que parecia um anjinho barroco tocando harpa.

Lembrei-me! A Prefeitura tinha tirado os camelôs dali e estava começando a revitalizar a área. Muito bom. Já no segundo dia dava para sentir o efeito.

Parece que as pessoas compartilhavam da minha sensação. Caminhavam, observavam, haviam tomado conta do espaço. Eu quis parar para ver melhor a escultura do anjo, mas entre nós havia muitos pombos e eu achei melhor não me arriscar. Outro dia faço amizade com eles e peço licença para observar o anjinho barroco, mais de perto.

Mas observei os pombos. Havia muitos no chão, bicando alguma coisa aqui e ali. Na cabeça do anjo havia um, dormindo, no maior sono, sem a menor cerimônia. Logo abaixo dele, havia mais dois que me chamaram a atenção. Eles pareciam conversar e o mais interessante, um era marrom. Engraçado, quase não se vê mais pombos marrons, geralmente são todos daquela cor acinzentada, escura. Olhei para o chão e confirmei. Somente aquele era marrom. Será que ele era pombo correio? Um daqueles que levou um celular para um presídio de segurança máxima, no interior de São Paulo? Ou não foi em São Paulo? Será que ele era o pombo marginal? Logo ele, tão animado, conversando com o outro, passeando os dois pelo pescoço do anjo. Não. Não deveria ser. Melhor esquecer aquele pombo correio marginal. Para que tirar toda a poesia do momento?

Deixei os pombos para lá e o anjo também e continuei o meu caminho. O trabalho me chamava.

Lá de cima, do De Paoli, olhei pela janela da sala, que por minha sorte, fica de frente para o Largo da Carioca e vi que ali estava renascendo um lugar bem interessante, cheio de história. Por sinal, Páscoa é renascimento.

Depois de tomar algumas providências no trabalho, resolvi ir ao banco e aproveitar para tomar um café na rua. É um dos meus programas favoritos, no Centro do Rio.

Quando entrei na Avenida Rio Branco, vi que o movimento estava maior do que o de costume. As pessoas estavam agitadas, filas em todas as lojas de chocolates, apesar de todo mundo fazer dieta, filas em bancos, filas nos cafés. Desisti de tomar o meu. Gosto de sentar e ficar tomando o meu café com calma, observando a rua e as pessoas e hoje não seria possível. Logo começou a chover um pouco. As chuvas de outono. Aí piorou. Guardas chuvas para todos os lados, pessoas andando na contra mão, outras paradas no meio da calçada, atravancando o fluxo. Uma loucura. O trânsito estava todo congestionado. Os motoristas cariocas, em sua grande parte, têm o péssimo costume de fechar os cruzamentos. Eles não passam e nem deixam os outros passarem. Minha última tentativa, depois do banco, foi entrar na Drogaria Pacheco. Também havia filas imensas. Aliás, eu não entendo como pode existir tanta farmácia no Rio. Só pode ser lavagem de dinheiro.

Não tive alternativa a não ser voltar para a Corretora e ficar olhando o anjinho barroco através da minha janela. O pombo marrom não estava mais lá. Será que tinha ido levar alguma encomenda para outro presídio? Não, ele não. Hoje é Quarta Feira da Paixão...

Rio, 08.04.2009
Maria Cristina Villares
villaresmcl.blog.uol.com.br

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