Aula de Natação
09/03/2009
Acordo com um barulho insistente e irritante. Olho para o lado. É ele, aquele despertador antipático. Só me resta desligá-lo. São 6 h da manhã, dia de aula de natação. Dou um pulo da cama, desligo o ar condicionado e abro as janelas, tudo no automático, sem pensar, porque se pensar um pouquinho que seja, fico na cama. No banheiro, aquela higiene básica matinal, depois o maiô de natação que já está dependurado na porta do armário, olhando acintosamente para mim, short, camiseta e havaianas. Pego minha bolsa, que também já tinha sido arrumada na véspera, com tudo aquilo que uma mulher precisa para tomar depois um bom banho, lavar os cabelos, se maquiar, etc. Já na rua não penso mais em desistir, libero meu cérebro para funcionar, pois vou precisar dele. Caminho um pouco e logo chego à Academia. Vejo meu professor dando aula para a turma das 6 h. Ainda bem que existe gente mais maluca do que eu!
- Bom dia, Ítalo.
- Bom dia, Cris.
Ele é uma pessoa muito especial, uma gracinha por dentro e por fora, feita sob medida para aquela profissão. Começam a chegar os meus colegas de turma. Um pessoal legal, simpático, entre 50 e 60 anos. Não tem nenhum candidato a Adônis ou a Vênus de Milo, muito menos a Michael Phelps, somente normais, que vão lá para manter a saúde. Às 7 h, todos de toca de silicone, o que nos deixa parecidos com joaninhas de desenho animado, tomamos uma ducha e é inevitável, entramos logo na piscina, porque fugir agora pegaria mal. O início é terrível!
- Turma das 7 h, 400 metros livres para aquecer - diz o nosso mestre com autoridade.
Nos primeiros duzentos metros dá vontade de desistir. Bata a perna, só o pé não, a perna inteira! Agora o braço. Estique bem levando o ombro junto e puxe a água com a palma da mão até a altura do quadril, aí você faz um ângulo reto entre o braço e o antebraço e tire esse conjunto da água, sem esquecer a mão, é claro! Enquanto isso o outro braço já tem que estar bem esticado lá na frente, junto com o ombro. Esqueceu das pernas? Não pode, continue batendo. E como é que eu respiro? Ou eu não respiro e bebo água e me afogo? Respiro, lógico, em 3 X 1. A cada três braçadas, uma respiração, virando suavemente a cabeça para um dos lados, e inspirando pela boca. Não vai esquecer e inspirar água, é para inspirar só o ar. Entenderam? Não é tão difícil, basta concentração e coordenação, enquanto você conta os azulejos do fundo da piscina.
- Italo, já fiz 400.
- Agora então faz 400 metros medley - continua ele, ainda com autoridade.
- Como é que é o medley mesmo? Esqueci.
- Primeiro 100 borboleta, depois 100 costas, depois 100 peito e no final 100 crawl. Nessa ordem, Cris.
Sua autoridade já se arrefeceu e ele abre um sorriso.
- Não dá. Borboleta eu não sei e não posso aprender. Tenho lordose, escoliose e futuramente artrose. A borboleta vai travar a minha coluna. Vai pegar o ciático.
- Então Cris, faz pernada de golfinho com braço de crawl no lugar da borboleta.
- Como é que é? Repete para eu poder processar. Já não sei mais se o braço é da borboleta ou se é meu. E a perna, é de quem mesmo? Minha ou do golfinho?
Ele ri e diz paciente e pausadamente.
- Cris, faz pernada de golfinho e braço de crawl, respirando em 3 X 1 ou 5 X 1. Fácil! Pegou?
- Agora peguei, mas esqueci a ordem. O que vem mesmo, depois desse golfinho que era borboleta?
- Costas, peito e crawl - repete ele com toda a paciência.
É um santo, esse garoto. Acho melhor não abusar da paciência dele e fechar logo esses 400 metros medley, misturado com o golfinho e a ex-borboleta.
- Cris, agora pode por o pé de pato e pegar a pranchinha. Quero 600 metros. São 100 de pernada de crawl e 100 de pernada de costas, com a pranchinha, repetindo essa série três vezes. No crawl, a respiração é 5 X 1 ou 7 X 1, junto com a braçada. Acelera turma, porque está acabando. Vai!
Agora eu já estou animada. Com o pé de pato fica tudo mais fácil e de costas então, a gente vira um foguete. A turma toda se anima. Somos solidários.
- Pronto, fechei 600.
- Então faz mais 200. Os primeiros 100 crawl acelerado, o mais que puder e depois 100 soltando, em qualquer estilo. Mantém o pé de pato nos primeiros 100 e depois pode tirar.
Lá vou eu de novo. Acelerando rápido para acabar logo e depois poder soltar. Termino e o cansaço chega.
- Agora acabei! Não dá mais, Ítalo!
- Ótimo Cris. Alongue um pouco e pode sair.
Agora as sensações que chegam são de bem estar e de superação. Nada melhor do que aquele momento de relaxamento na água, depois uma de uma hora de um bom exercício, com um bom professor, simpático e paciente. Estamos quites com Netuno.
Rio, 09.03.2009
Maria Cristina Villares
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