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Uma Mulher em Minha vida
25/05/2009

Ela não tinha mais do que um metro e meio de altura. Era baixinha, porque quando ainda menina, sofreu uma queda de um cavalo, o que lhe causou uma grande escoliose e naqueles tempos, na primeira década do século XX, não havia tratamentos médicos adequados nas cidades do interior. Mas esse problema, por assim dizer, nunca foi realmente um problema para ela. As dores, frequentes e o visível desvio na coluna nunca foram motivos para queixas.

Ela era a mulher mais velha de uma série de irmãos e irmãs e a preferida de seu pai, por quem tinha um grande amor. Na época certa, apareceu-lhe o seu segundo grande amor, com quem se casou e viveu em harmonia e companheirismo por mais de sessenta anos. Seu nome era Antônio.

Qual o nome dela? Maria. Não poderia haver nome mais adequado para ela. Era tratada por todos como Mariinha, por ser pequenininha. Mas ela era pequenina somente na altura, pois era uma grande mulher, generosa, personalidade forte, mandona mesmo, emotiva, alegre, líder. No casamento, ela era a cabeça e o coração do casal. Conduzia Antônio sempre pelos melhores caminhos, auxiliava-o o tomar as melhores decisões, o apoiava sempre que necessário. Foram felizes. Tiveram duas filhas com uma diferença de sete anos entre elas. A mais velha chamava-se Wilma e a mais nova, Cleyde. Nomes típicos de atrizes de cinema da época. Wilma é minha mãe e Cleyde é minha tia. Concluímos então que Maria e Antônio eram meus avós maternos.

Tive a felicidade de ser criada por esse casal, por motivos que não cabe aqui mencionar, ou essa crônica seria um livro de memórias. Passei minha infância, até os sete anos de idade, com eles, numa cidade do interior de São Paulo, onde pude ter contato com a natureza, com os animais, com as plantas. Tive a oportunidade de brincar nas águas turbulentas das enxurradas, de ver arco íris, estrelas, de andar a cavalo em fazendas, de tomar leite quente no curral, tirado na hora, de pular amarelinha e corda na rua, de morar em uma casa com quintal, horta, frutas e bichos. Pude passear na praça com meu avô, tomando sorvete, nós dois, sentados num banco, à sombra das árvores. Fui uma criança feliz. Lamento pelas crianças de hoje. Talvez nunca vejam uma vaca, cara a cara.

Meu avô Antônio era meu companheiro de empreitadas, todo o seu coração era meu. Tinha por mim um carinho e um amor imensuráveis. Minha avó Maria era mais enérgica, dava-me amor sem deixar de me ensinar a separar o certo do errado. A ela devo toda a minha formação. Ela foi minha avó, minha mãe e minha educadora. Nela eu tinha a mulher que fazia a melhor comida do mundo, em fogão a lenha, que costurava minhas roupas com esmero e bom gosto, que me ensinava a tratar os animais com respeito e carinho, que me mostrava a beleza de uma flor. Ela me passou os seus princípios: ser honesta, justa, generosa, não discriminar ninguém. Eu fui o seu maior e último amor. Fui, com certeza, a pessoa que ela e que meu avô, mais amaram em toda a sua vida. Ela, que não tinha papas na língua, declarava esse amor incondicional a todos, inclusive às próprias filhas.

Fui muito feliz e muito amada. Hoje, desde que acordei, o rosto dessa mulher maravilhosa, de pele clara e viçosa, cabelos brancos como a neve, não me sai da lembrança. Sinto saudades daquela época, daquelas pessoas tão queridas e tão importantes na minha vida. O tempo já os levou, mas eles continuarão para sempre perto de mim, principalmente minha avó Maria. Avó, mãe, amiga, educadora, formadora. Tudo o que aprendi naquela idade, foi com ela. Ela deixou em mim as suas marcas, os seus princípios, os seus valores, fonte inesgotável de energia e equilíbrio para enfrentar os momentos difíceis da vida.

Olhando para minha mãe e para minha tia, acho que talvez eu seja a mais parecida com vovó. Talvez por ter convivido intensamente com ela, numa fase de sua vida em que ela se dedicava exclusivamente a me educar e a me amar. Em certas épocas eu não entendia e sempre questionava porque tinha passado minha infância com os meus avós e não com os meus pais, como é normal. Hoje, não me importa mais entender. Só me resta agradecer ao destino e à vida, por ter tido uma mulher como Maria, ao meu lado, justamente quando minha personalidade se formava.

A Maria e a Antônio, estejam onde estiverem, todo o meu amor e a minha gratidão...

Pudessem as crianças de hoje ter uma Maria ao seu lado!

Rio, 25.05.2009
Maria Cristina Villares
villaresmcl.blog.uol.com.br

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