Meu Momento de Escrever
28/01/2009
Não sou um ser formado no mundo literário, ao contrário, sou um ser formado e forjado no meio técnico, no mundo dos números, dos contratos, das certezas matemáticas e ainda hoje, mesmo que não totalmente, pertenço a esse mundo, pelo menos, durante uma boa parte do dia. Mas ao raiar dos meus cinqüenta e quatro anos, passando por conflitos de ordem pessoal e profissional, lutando contra minhas angústias, dúvidas, revoltas antigas e atuais, nessa luta de mim contra mim mesma, comecei a escrever o que me vinha à cabeça. E eis que me descubro escrevendo com o mais puro prazer, sem compromisso com ninguém, a não ser com a minha alma, o meu coração, os meus ideais, os meus pensamentos, as minhas certezas que já não são mais certezas e sim incertezas.
Chega a ser assustador, sentir esse momento de prazer chegando, eu finalizando rapidamente as tarefas rotineiras diárias e preparando-me para senti-lo da melhor forma possível, fechada no silêncio de meu apartamento, notebook no colo, televisão ligada, mas sem som, telefones mudos, meu caderno de anotações. É hora de deixar o silêncio invadir o ambiente e eu começar a ouvir a minha alma, iniciar uma viagem pelo que pude perceber e sentir durante o dia. E a viagem continua por outros dias, outros lugares, outras épocas, distantes até. Começam a aparecer as imagens, como num filme, a brotar as sensações, as lembranças, a visão torna-se enevoada pelas lágrimas que insistem em ocupar o seu espaço, o coração bate mais forte, a garganta aperta e eu me submeto ao que vem de dentro de mim. Meus dedos, digitando o teclado do notebook, não obedecem ao meu comando, mas sim ao comando da minha emoção, da minha alma. É quase um estado de transe. Na Umbanda seria como eu fosse um cavalo de um orixá.
Não importa o tema, o assunto sobre o qual se escreve. O prazer é sempre o mesmo, o ambiente é sempre preparado com o mesmo esmero, que aquele momento merece. Sinto-me gratificada e agradeço a Deus por ter-me dado a oportunidade de experimentar essa sensação. Sinto-me feliz, como se todos os problemas enfrentados diariamente, que tanto consomem o ser humano, e a mim também, estivessem terminados.
Não importa se fez sol ou se choveu durante o dia. O dia acabou e veio a noite, e com ela essa sensação de domínio. Nessa hora, eu gostaria que chovesse, ou que ventasse. Imaginem as gotas da chuva caindo, ou o barulho das folhas das árvores dançando ao comando do vento, e o escuro da noite invadindo aquele espaço, invadindo o meu corpo e tomando para si o meu espírito. Meu pensamento viaja por lugares ainda inexplorados e me traz sensações ainda desconhecidas, provocando um certo medo. Viaja também pelo passado, trazendo tristezas, saudades, lembranças, mágoas e então uma dor intensa percorre a minha corrente sanguínea, meus músculos, meus nervos, mas que paradoxalmente transborda a minha alma de prazer.
Passo a ficar mais recolhida, mais solitária. Passo a precisar constantemente dessa solidão, desse misto de dor e de prazer. É uma solidão companheira, que me conforta, que me dá coragem para investigar mistérios escondidos no mais profundo de meu ser.
Passo a ser como os gatos, caseiros, irritadiços quando os tiram de seu canto. Olho os jornais, procuro algum programa que me agrade, mas nada me seduz, nada me liberta desse prazer que me domina.
Filmes, teatros talvez, mas nada se compara ao encontro de mim comigo mesma.
Apenas um livro, quando ele passa a dominar-me também, consegue dividir esse espaço com o prazer de escrever.
Possuo poucos amigos, mas fiéis amigos, que me compreendem e aceitam-me dessa maneira, mais reclusa, mais introspectiva. Em compensação, quando estou com eles, estou por inteiro, sem restrições, estou porque quero e porque gosto.
Já atingi uma fase da minha vida, onde me obrigo a desempenhar certos papéis, inevitáveis, tais como administrar a saúde e a vida de meus pais, administrar os negócios da família, ser responsável pelas pessoas que trabalham conosco, cuidar de minha saúde física e mental, etc
São muitas as obrigações para uma só pessoa e é pouco o tempo que me sobra, mas com o que me sobra, faço agora questão de viver da forma que melhor me convier, da forma que mais me agradar, sofisticando e refinando a minha visão de mundo, ampliando meus horizontes, trabalhando a minha imaginação, experimentando novas sensações.
É um mundo totalmente novo, ainda pouco explorado. Sei que é um caminho solitário, mas é o caminho que escolhi para mim. Ou fui escolhida por ele? Quando escolhi estudar Engenharia, tinha apenas dezoito anos e não tinha consciência daquilo que realmente me completava. Ao passar a administrar os negócios da família, foi por responsabilidade e necessidade, pois sabia que aquela era a minha missão. Tratei de exercê-la e ainda exerço-a da melhor maneira possível, com feminilidade, naturalidade, compaixão, sem apego ao poder. Não aceito ser uma executiva sem alma, sem conflitos, sem dúvidas, sem paixão. Cheguei à conclusão de que o mundo dos negócios pode e deve ser “feminino”, aliado ao mundo mágico do imponderável, dos mistérios, da realidade misturada à ficção. Agora, com mais consciência do que sou e do que quero, ou melhor, do que não sou e do que não quero, faço minhas escolhas movida pela paixão, pela alma, pelo falar do coração.
Somente assim darei um real sentido à minha vida e a viverei sem medo de mudar, sem medo perder ou de errar, sem medo do novo, do desconhecido, mas com muito mais chance de ser feliz.
Rio, 28.01.2009
Cristina Villares
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