Mateus, um Menino do Rio
09/02/2009
A crise econômico-financeira estourou nos Estados Unidos no dia 15 de Setembro de 2008. Inicialmente acreditava-se que o Brasil permaneceria praticamente ileso, que sairia apenas com algumas escoriações e alguns arranhões desse desastre, que todo o problema, ou quase todo, ficaria estancado em seu epicentro, avançando somente pela Europa e pelo Japão, mas que tudo seria rapidamente resolvido.
Estamos em fevereiro de 2009 e está claro que ainda resta um longo e nebuloso caminho a ser percorrido, não somente pelos países desenvolvidos e ricos, mas também pelos que estão em desenvolvimento, inclusive por nós. Desemprego aumentando, preços das commodities caindo, produção industrial desacelerando, comércio em queda, o brasileiro está aprendendo a cortar gastos. Acabou-se o tempo das vacas gordas, dos inúmeros cartões de crédito, do supérfluo, do desperdício.
Acontece que desperdício e sucata, para catadores de lixo, são meio de vida e até eles estão sendo atingidos por essa crise made in USA e esse é, infelizmente, um dos tantos lados mais tristes de toda essa confusão. Uma amiga repórter, sempre antenada com o lado social e humano da vida, resolveu tentar retratar a cruel realidade desses catadores, enquanto o seu fiel companheiro fotógrafo foi investigar o local, à procura de melhores ângulos para as suas fotos. De repente, ele deparou-se com um menino pequeno, muito simpático, brincando nas pilhas de papel estocadas no galpão
O menino olhou-o com curiosidade e abriu um sorriso largo, como se estivesse convidando-o para uma conversa a dois. O fotógrafo, que adorava crianças, perguntou:
- Qual o seu nome?
- Mateus.
- Quantos anos você tem, Mateus?
- Seis.
- Onde você mora?
- Na favela, aqui perto.
- Você vem sempre aqui, Mateus?
- Eu venho todo dia. Ajudo meu pai e depois fico aqui, brincando.
- Seu pai é catador?
- É sim! Minha avó também.
- Você estuda Mateus?
- Não tinha vaga pra gente, na escola aqui perto. Só no ano que vem.
- Por que você brinca aqui?
- Eu gosto de brincar com os papéis e aqui não tem tiroteio.
- Mas por que você gosta de brincar com os papéis?
- Gosto de ver as figuras. Tem cada desenho bonito! Olha esse aqui: é um leão.
- Você gosta de bichos?
- Eu gosto. Na minha casa tem dois cachorros. E você, o que está fazendo?
- Estou tirando umas fotos para a reportagem do jornal.
- O meu retrato vai sair no jornal?
- Se o dono do jornal escolher uma foto sua, você vai sair no jornal, sim.
- Legal! Tomara que ele goste do meu retrato.
- Eu também gostaria que você saísse no jornal. Muita gente ia conhecer você.
- Sabe que eu já conheço o mundo todo?
- Como assim, Mateus?
- Meu pai falou pra gente, que aqui tem papel de todos os lugares do mundo e então eu conheço todos esses lugares, porque eu fico vendo as figuras e fico viajando pelo mundo todo...
O fotógrafo ficou comovido, assim como também me foi impossível não me emocionar. O que será que o futuro reserva a Mateus?
Rio, 09.02.2009
Maria Cristina Villares |