A Lua
03/04/2009
Vários cronistas têm escrito sobre o outono no Rio e citaram até Drummond: “O outono é a estação da alma”. Concordo com todos eles, em gênero, número e grau. O outono no Rio tem estado realmente deslumbrante, principalmente, após aquele fevereiro escaldante. Dias de sol, temperatura amena, céu azul. Mas como não quero ser repetitiva, vamos então falar sobre a Natureza e, em especial, sobre a Lua, mulher, irmã e companheira.
O Sol. De repente ele se cansa e chama as nuvens para ajudá-lo, ou melhor, para trabalharem enquanto ele se refaz. Afinal ele é o astro rei e elas têm mais é que obedecê-lo. “Obedece quem tem juízo, manda quem pode”, ou ao contrário, mas dá no mesmo. Chegam as nuvens silenciosamente. Primeiro as pequeninas e em pouco tempo estão todas unidas num esparso nevoeiro, acinzentando o dia. Cai uma chuva fininha, persistente talvez, que lava o ar, a terra, as plantas. Sobe do chão aquele cheiro de terra molhada. O Sol tinha combinado com o Mar. Iriam, os dois, fazer essa chuvinha cair por um tempo.
No dia seguinte, já refeito de seu cansaço, reaparece o Sol e vai aquecendo devagarinho o coração da gente, manda o nevoeiro e a chuva embora e escolhe algumas nuvenzinhas para fazer-lhe a corte.
Enquanto isso, aqui na terra, o verde das árvores e dos gramados está exultante, cheio de si, exibindo seus vários matizes por onde alcança a nossa vista. As outras cores também surgem das flores, pedindo licença ao verde, para aparecerem. Como ele é soberano e sábio, cede-lhes gentilmente espaço. Aí surge o vermelho todo sensual, o amarelo, de nariz em pé, o rosa alegre e juvenil. A brisa corre sorrateira e apressada pelas ruas e o Mar continua sério, poderoso, sempre coexistindo com o Sol. Marte e Netuno. Cada um tem seu reino, não há tentativas de tomada de poder. Os dois conhecem perfeitamente as suas forças e cada um reina absoluto em seus domínios.
A noite vem. É hora das estrelas e da Lua entrarem em ação enquanto o Sol vai aquecer outros lugares. As estrelas são como crianças travessas, brilhando aqui e ali, inocentes, puras, castas, como disse Hamlet. Só pensam em brincar. Não estão muito preocupadas conosco, não.
Já a Lua é diferente. A Lua não é casta. Ela já pecou, já amou, já sofreu, passou por períodos de depressão, mas agora está de bem com a vida. Machado de Assis disse que ela teve um caso amoroso com um astro vagabundo por milênios, que não teve um final feliz. Talvez, mas ela acabou dando a volta por cima e está bem resolvida, feliz, fazendo charme para vários astros jovens e recebendo elogios de toda a galáxia.
A Lua é vivida, experiente e por isso nos compreende, nos ouve, nada recrimina. Escuta tudo com paciência e é sempre boa conselheira. Low profile, aparece majestosa e enigmática. Nunca reclama do cenário que foi preparado para ela, porque ela não precisa de palco. Ela é o próprio cenário. Uma perfeita show woman.
Surge de mansinho e fica esperando que a ela recorramos e que a ela contemos todas as nossas dores e amores, dissabores e desamores. É tão poderosa, tão femininamente poderosa, que domina o Mar, sem que ele se dê conta. Faz com que suas marés subam ou desçam, controladas por ela. E quando o Sol vem ressurgindo, não se intimida e não desaparece correndo. Fica ali mais um tempo, até que se sinta pronta para partir.
Lembro-me de quando eu era criança, em noites de Lua cheia, meu avô mostrava-me São Jorge montado em seu cavalo, lutando contra o dragão. A Lua os carregava. Eu os via nitidamente, como Caetano também já os viu.
“lua de são jorge
cheia branca inteira
oh minha bandeira
solta na amplidão
lua de são jorge
lua brasileira
lua do meu coração
lua de são jorge
lua maravilha
mãe, irmã e filha
de todo esplendor”
Que tal voltarmos a olhar para a Lua, e tentar ver São Jorge em seu cavalo? Será que essa aparição não nos fará bem, em tempos tão difíceis, de valores tão distorcidos? Assim como o outono é a estação da alma, a Lua é o astro do coração, da nossa emoção, do nosso “eu” mais profundo e verdadeiro.
Rio, 03.04.2009
Maria Cristina Villares
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