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Janeiro de 2009
16/01/2009

Desde o fatídico 15 de Setembro de 2008, quando caiu a máscara do American way of living , vindo à tona os títulos podres, a farra das hipotecas imobiliárias, os lucros virtuais, os balanços manipulados de empresas, o exagerado consumismo americano, economistas, analistas políticos, astrólogos, videntes foram unânimes em apontar 2012 como o pior dos anos vindouros, o ano apocalíptico.

Estamos ainda em janeiro de 2009 e eu já tenho dúvidas e temores sobre as adversidades que teremos que enfrentar para que consigamos alcançar 2012 e ultrapassá-lo. Tenho meus motivos para esse temor, para essa dúvida. Bastou abrir os jornais nos primeiros quinze dias de janeiro e sou bombardeada com fatos estarrecedores.

Cinco aves simplesmente desapareceram do Zoológico do Rio, provavelmente foram roubadas, três papagaios do mangue, uma arara canindé e outra ave da família dos tucanos. Também, no Rio, no dia seguinte, uma leoa foi encontrada numa jaula de uma casa em Jacarepaguá, onde também havia um macaco prego.

Enchentes no Sul e no Sudeste deixam milhares de desabrigados, pioram ainda mais o já precário estado das rodovias do país, que aliado à total imprudência, irresponsabilidade, desrespeito às leis e à vida humana, de alguns motoristas, resulta em estatísticas alarmantes sobre acidentes, com feridos e mortos nos feriados de Natal e Ano Novo.

Tomam posse os novos Prefeitos e Vereadores. Será que alguma coisa vai mudar? Custa-me crer...

O Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, recebe o título de ser a terceira favela que mais cresce na Zona Sul da nossa cidade. Copacabana recebe o título de dormitório de mendigos, já que na noite do dia 14 para o dia 15 de janeiro, foram encontrados trinta e seis dormindo a sono solto, somente na Av. Atlântica e na Rua Barata Ribeiro, sem contar na Av. Copacabana e em todas as outras ruas do bairro.

Entra em vigor o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa – vão-se acentos, tremas e complicam-se ainda mais os hífens.

Dona Marisa Letícia entrou muda e continua calada. Seu marido não lhe dá uma chance...

O Senado Federal aprova a compra de cadeiras especiais, dignas dos nossos distintos Senadores da República, por uma bagatela de dois milhões de reais.

Lula, quando ainda declarava que a crise financeira mundial chegaria aqui como uma marolinha, disse a seu povo: “Comprem tudo o que desejarem, realizem seus sonhos de consumo”. Seu povo, ou uma grande parte dele, já endividada, comprou. Agora, duplamente endividados, esses cidadãos não sabem o que pagar primeiro, sendo que alguns já até perderam seus empregos. Essa declaração do nosso Presidente foi, no mínimo, irresponsável e insensata. Lembro-me de que na mesma época, ouviu-se uma voz que transmitia a sensatez que tinha faltado a Lula. Era Paulo Skaf, Presidente da FIESP: “Não vale a pena pregarmos nem o otimismo, nem o pessimismo, vale a pena sermos muito equilibrados”.
Equilíbrio! Palavra chave, que faltou e que falta a muitos de nós e a qual perseguimos por toda uma vida.

Mas o que mais me chocou mesmo, foi saber que os participantes do Big Brother, agora ficam expostos em uma espécie de aquário, num Shopping da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Então eu me pergunto: “Quais os valores dessas pessoas que se deixam expor num aquário, por dinheiro, e quais os valores das outras tantas que lá vão admirá-los, como se fossem uma atração turística?” Isso sem falar nos milhões de telespectadores que dão audiência a esse tipo de programa, qualificado de entretenimento! Mas o que esperar de um povo, cujo Chefe da Nação declara que não lê?!

A resposta a essa pergunta deixou-me inicialmente revoltada e depois imensamente triste. Fui tomada por uma melancolia, uma vontade de ir embora para Pasárgada. Mas onde seria a minha Pasárgada? Não sei, estou atônita e sem direção, sem fé no futuro. Esgotaram-se minhas esperanças...

Depois de uma dose de whisky, com gelo, oito anos, pois também estou em regime de contensão de despesas, ouvi o canto do meu vizinho, um bem-te-vi, que vive livre e solto, a cantar e a encantar os moradores do bairro. Meu bem-te-vi trouxe-me um alento, seu canto aqueceu meu coração. Não era o sabiá de Gonçalves Dias, nem a cotovia de Manuel Bandeira, mas era o meu bem-te-vi, que vinha devolver-me a esperança perdida.

Quem sabe amanhã não haverá sol, no céu azul de Copacabana?  Poderei então caminhar pelo calçadão, olhar para aquele mar lindo, aquelas montanhas recortadas ao fundo. Adormeci...

Acordei e vendo que havia sol, telefonei imediatamente para minha amiga Marly, minha companheira de caminhadas. Fomos da Rua Santa Clara ao Leme e voltamos. Depois sentadas sob a proteção da sombra refrescante de uma frondosa amendoeira, tomamos uma água de coco e conversamos sobre as minhas preocupações. Marly compartilhava de meus princípios e valores, senão não seria minha amiga há quase trinta anos.

Enquanto eu contemplava o mar azul, com o reflexo dourado do sol, em sua superfície, o verde escuro das montanhas ao fundo, dei-me conta de que as pessoas passavam, também aproveitando a linda manhã de sol. Comecei a observar seus rostos, seus olhos e percebi que ainda existe gente honesta, trabalhadora, que valoriza o correto, valoriza o humano, valoriza o belo.

Volto a ter esperanças, há salvação, apesar de todas as forças antagônicas que existem e continuarão a existir. Sim, chegaremos a 2012 e o deixaremos para trás. Dia 20 é dia de São Sebastião, guerreiro, padroeiro dessa Cidade Maravilhosa. Que ele nos abençoe e nos ajude a não esmorecer. 

Rio, 16.01.2009
Cristina Villares

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