Rua Gonçalves Dias – Centro – Rio de Janeiro
02/03/2009
A grande maioria dos cariocas conhece a Rua Gonçalves Dias, no Centro do Rio. Talvez os mais jovens, os que ainda não têm o costume de ir ao Centro, não a conheçam, mas um dia certamente a conhecerão. Essa era uma das ruas mais freqüentadas pela elite carioca, pelos intelectuais, pelo crème de la crème, no século XIV e até meados do século XX. As melhores lojas e as melhores modistas estavam na Gonçalves Dias e na Ouvidor, uma de suas transversais. Hoje resta apenas a Confeitaria Colombo, construída em 1922, com sua linda clarabóia e seus espelhos da Antuérpia.
Mas quem foi Gonçalves Dias? Essa é a pergunta que deve ser respondida, pois aí está a nossa história, e um pouco de história num país onde cultura e educação não são prioritárias, nunca é demais. Às vezes passo por ruas e avenidas com tantos nomes diferentes e fico imaginando quem seriam os homenageados. Chegou a vez de nos lembrarmos de Gonçalves Dias, o poeta nascido em 1823, no Maranhão.
Ele era um nacionalista, tinha orgulho de ter em seu sangue, as três raças formadoras do povo brasileiro, a branca, a indígena e a negra, pois era filho de um português com uma cafuza. Em 1840 foi para Portugal estudar Direito em Coimbra, onde entrou em contato com os escritores portugueses. Ele adorava a sua pátria e em 1843, inspirado pela imensa saudade que sentia do nosso Brasil, escreveu o lindo poema “Canção do Exílio”.
"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."
Voltou ao Brasil em 1845, já formado em Direito, onde produziu inúmeras obras literárias, mas com a saúde frágil, retornou à Europa para tratar-se, em 1862. Em 1864, já desenganado, quis voltar para a sua amada terra, pois aqui queria morrer. Por ironia do destino, o navio em que viajava naufragou ao chegar à costa brasileira. Todos se salvaram, exceto o nosso Gonçalves Dias, que por estar agonizante no leito do navio, ali foi esquecido, naufragando junto com a embarcação.
“Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."
Infelizmente o desejo de Gonçalves Dias não se cumpriu, assim quis o destino. Sempre que passo, agora, pela sua Rua, lembro-me do poeta, do homem e fico a imaginar que bom seria se houvesse pelo menos um Gonçalves Dias em Brasília...
Rio, 02.03.2009
Maria Cristina Villares
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