Português inglês
Villares Corretores de seguros - Rio de Janeiro

Contato

Paraíso perdido
21/08/2008 - Valor Econômico - Eliana Cardoso

"Paradise Lost" foi impresso pela primeira vez em 1667. Milton recebeu de Samuel Simmons 5 libras esterlinas na entrega do livro e outras 5 libras quando a primeira edição de 1.300 cópias se esgotou. Depois da morte do poeta, a viúva abdicou dos direitos autorais por 8 libras. Como comparar a quantia que o famoso clássico da literatura inglesa rendeu ao autor e sua mulher com a que hoje ganham poetas de renome? Quantas refeições, sapatos e espetáculos teatrais Milton e sua família poderiam ter comprado com as 18 libras? Não dispondo dos preços desses bens na Inglaterra do século XVII, meu remédio é lançar mão do preço do ouro, que obtenho em "The Price of Gold: 1257-2008", de Lawrence Officer.

Em 1667, uma onça de ouro custava 4,05 libras esterlinas. Esse valor manteve-se mais ou menos estável durante os dois séculos seguintes e subiu na década de 1930. Disparou depois de 1972, chegou a US$ 612 em 1980, caiu a US$ 271 em 2001 e voltou a subir a partir de 2005, atingindo US$ 695 em 2007. Se Milton e sua família tivessem comprado ouro com as 18 libras que receberam, teriam obtido 4,4 onças. Se as tivessem guardado e depois vendido no final de 2007, seus direitos autorais equivaleriam a cerca de R$ 5.200 no começo de 2008. Comparado a um poeta de renome na atualidade, Milton foi mal remunerado, mas recompensado com fama imortal.

Lembro a história de Milton e seu poema - que, segundo Shelley, fez de Satã um herói, porque ouvi dizer que os anos 2004-08, de crescimento alto e inflação cadente, transformaram o Brasil num paraíso econômico. Em 2009, proclamam as más línguas, conheceremos o paraíso perdido.

Aumenta a possibilidade de recessão global

A grande arrancada da América Latina a partir de 2003 - a do Brasil em particular - originou-se em fatores externos, que proporcionaram à região uma melhora substancial dos termos de intercâmbio. A figura abaixo (de Marcelo Carvalho, economista do banco de investimento Morgan Stanley) mostra a relação entre a taxa de crescimento do preço das exportações brasileiras e a da nossa renda, entre 1993 e 2008.

Até 2004, a relação é forte. Mas, em 2005 e 2006, a taxa de crescimento do PIB esfriou, se comparada à de 2004, embora a taxa de crescimento dos preços das exportações continuasse elevada, talvez em razão de taxas de juros mais altas entre o fim de 2004 e março de 2006. Em 2007, a economia acelerou-se outra vez e, no começo de 2008, uma nova arrancada dos preços das exportações voltou a impulsionar o crescimento e gerar esperanças de descasamento do Brasil da crise financeira dos EUA. O descolamento depende do comportamento do preço das commodities, pois é ele que explica o comportamento dos preços das exportações brasileiras. Uma recessão global haveria de reduzir os preços das nossas exportações.

A probabilidade de que a crise americana se transforme numa recessão global vem aumentando. As informações das últimas semanas revelam que as economias do G-7 (EUA, Inglaterra, Japão, Alemanha, França, Itália e Canadá) já estão em território negativo ou prestes a entrar nele. Outros países da Europa (como a Espanha) e alguns emergentes (como a Nova Zelândia) também parecem mover-se na mesma direção.

Estados Unidos, Europa, países asiáticos e latino-americanos estão ligados pelo comércio internacional. As exportações mundiais, que em 2007 cresciam a um ritmo de 13% ao ano, hoje se expandem a 8%. Tanto a redução do PIB global quanto a do comércio ocorreram devagar, mas eram esperadas desde que a economia americana começou a esfriar. Para o Brasil, existe risco de prejuízo duplo, com queda nas cotações das commodities e na quantidade exportada. Dada a taxa de câmbio atual e o contexto de esfriamento global, seria difícil compensar a queda das exportações brasileiras de commodities com aumento das exportações de manufaturas. Assim, a contribuição da queda dos preços das commodities para o aumento do déficit em conta corrente do balanço de pagamentos já são favas contadas.

Mas a queda do preço das commodities pode ter efeitos benéficos (porém passageiros) sobre a inflação. Com certeza, seu primeiro impacto é no sentido de reduzir a inflação, que responde com rapidez à queda no preço dos combustíveis e dos alimentos. Por outro lado, a deterioração de nossos termos de intercâmbio provocaria expectativas de desvalorização cambial, com antecipação de remessas de lucros e fuga dos investimentos em portfólio. Se a desvalorização fosse forte, seu impacto inflacionário compensaria o efeito da queda dos preços das commodities.

Em "Alice no País das Maravilhas", o coelho branco pergunta ao rei: "Majestade, devo começar por onde?" O rei lhe responde com ar grave: "Comece pelo começo e vá até ao fim. Então, pare". O rei gostaria desta coluna, que começa pelo "Gênesis". Mas é preciso chegar ao fim. Aqui está: a queda dos preços das commodities em 2009-10 poderia elevar o risco-país, o que provocaria desvalorizações cambiais, aumentos simultâneos da taxa de juros e menos crescimento - o inverso do observado entre 2003-08. O governo poderia virar o jogo escolhendo o marco regulatório adequado à atração dos recursos necessários à exploração do petróleo recém-descoberto. Será? Mesmo num contexto internacional adverso?

voltar
 
Zurich
Bradesco Seguros
Unibanco Seguros
Chubb Seguros
Porto Seguro
Copyright © Villares Corretores de Seguros Ltda. Todos os direitos reservados. Profile Design
Página Inicial | Nossa História | Modalidades de Seguros | Equipe | Parceiros | Contato | Notícias | Publicações | Blog