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Cenas Urbanas –O Mestre da Bossa Nova
31/08/2008 | Veja - Tony Bellotto

Às vezes, como num provérbio zen, a verdade está no paradoxo. Exemplo: menos é mais. Ou: dois passos atrás podem significar um à frente. Ainda: os últimos serão os primeiros. Digo isso porque fui ao concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro. Roqueiro de formação, adepto entusiasmado do lema punk "do it yourself" e praticante ferrenho dos três acordes básicos que constituem 99% das melhores canções de rock, voltei do show do mestre da Bossa Nova como se chegasse de um show dos Rolling Stones ou de qualquer outra grande banda de rock’n roll.

Embevecido, inebriado, satisfeito com o que só a boa arte pode proporcionar: a sensação de que vivi tudo naqueles momentos fugazes do show. Alegria, tristeza, riso, choro, vida, morte. E não foi só pela música sublime apresentada por João. Nem por seu violão - motor de uma revolução musical -, ou voz -, que inventou uma nova maneira de cantar. Mas pela metáfora que João Gilberto concebeu ali, no palco do Teatro Municipal carioca.

Metáfora, pois o show significou um ato de resistência. Logo o João Gilberto, tão apolítico. Explico: todos sabemos que o Rio é hoje uma cidade fraturada, agredida e desmoralizada. O crime organizado e desorganizado, o tráfico de drogas, a desigualdade social, a corrupção política, a boçalidade e o desleixo das administrações transformaram o cartão postal do Brasil num de seus piores pesadelos. Mas o retrato em branco e preto que João Gilberto nos apresentou ali foi outro.

Em suas interpretações quase silenciosas de grandes canções – dava para ouvir a respiração da platéia enquanto ele cantava; tosses, pigarros e espirros transformavam-se em verdadeiros atentados sonoros – ele parecia querer dizer que uma mudança ainda é possível. Como se aquele silêncio e sutileza se impusessem aos tiros, aos gritos e à canalhice generalizada.

Como se aqueles sussurros quase inaudíveis tivessem a capacidade de neutralizar ganância, ignorância, insensibilidade e violência desenfreadas. Como se a beleza e melancolia da música de João Gilberto fossem capazes de anular a feiúra e os esgares da estupidez. Talvez não sejam, de fato. Mas conseguem insuflar ânimo e esperança em espíritos desolados, como o meu. E isso, em si, já é um feito heróico.


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